Cinema e TV

Tim Vickery: O momento mais genial da vida de extremos de Churchill

Tim Vickery
Direito de imagem: Eduardo Martino

Em 1951, seis anos depois da guerra que marcou tanto a sua vida e seu legado, Winston Churchill voltou a ser primeiro-ministro da Grã-Bretanha.

A luta contra os nazistas tinha levado o país à falência. Muitos alimentos ainda estavam sendo racionados. Churchill pediu para ver a quantidade de mantimentos permitida para cada cidadão. Colocaram os alimentos numa mesa, e Churchill mostrou a sua satisfação.

“Nao é uma refeição ruim”, falou.

Mas tiveram que explicar a ele que não se tratava da quantidade destinada a uma só refeição, nem mesmo a um só dia – era para uma semana inteira. Foi uma das poucas ocasiões na vida de Churchill em que ele ficou sem palavras.

É uma história maravilhosa. Mostra, por um lado, como ele nasceu e vivia numa bolha de privilégio. Mas também revela o seu enorme apetite pela a vida.

Churchill, trazido à vida memoravelmente por Gary Oldman (indicado nesta terça-feira ao Oscar de melhor ator) no filme O Destino de uma Nação, atualmente em cartaz, foi uma força da natureza, um excesso de tudo. Ele era capaz de ser muito genial – mas também de ser bastante bufão.

O filme o mostra em seu momento decisivo: a primavera de 1940, quando o recém-empossado primeiro-ministro tentava evitar a rendição britânica para Alemanha, algo que estabeleceria Hitler como o dono da Europa, fortalecendo-o para futuras conquistas.
Durante a década de 30, Churchill já advertia sobre o perigo nazista. Mas sua genialidade foi minada por seu lado tolo.

Essa não foi a única grande causa à qual Churchill se dedicava àquela época. Também lutava, com unhas e dentes, contra a independência da Índia, país que fazia parte do Império Britânico. Por dois motivos, tratava-se de uma falha bisonha de inteligência.

Primeiro, porque a batalha já estava perdida. A independência da Índia a essa altura já era inevitável – era somente uma questão de quando e como.

Segundo, porque, em termos políticos, essa campanha enfraquecia o seu objetivo principal. A luta contra a independência da Índia foi uma posição reacionária, apoiada somente pela direita.

Mas esses mesmos direitistas, na época, tinham uma certa admiração por Hitler. A luta contra os nazistas foi uma causa da esquerda – mas Churchill afastava esses a cada vez que falava contra a independência da Índia. Suas duas causas eram incompatíveis. Foi uma aula sobre como não formar uma coalizão política em prol de um objetivo maior.

Nenhuma surpresa, então, que, quando ele se tornou primeiro-ministro, no sombrio maio de 1940, muitos duvidavam de seu poder de raciocínio.

Mas, no fim das contas, o que contou foi a sua capacidade, desde o início, de enxergar o perigo de Hitler. É mais extraordinário ainda levando em consideração que, por um tempo, Churchill elogiou bastante o regime de Mussolini na Itália.

Sacou a diferença entre fascismo – uma ideologia de modernização conservadora na periferia da economia global – e o nazismo de Hitler, implantado num país já altamente industrializado e desenvolvido.

Muitos no lado conservador enxergavam em Hitler um aliado contra o comunismo, o socialismo e o poder dos sindicatos. Churchill enxergava muito mais – que a combinação de besteira medieval e produção em massa representava uma ameaça à civilização.

Os seus magníficos discursos de 1940 estão cheios de referências à “monstruosa tirania, que não tem precedente no sombrio e lamentável catálogo dos crimes humanos”.

Uma vitória nazista “vai mergulhar o mundo em um abismo de uma nova Era das Trevas, ainda mais sinistra e talvez mais prolongada pelo uso de uma ciência pervertida”. Parece que ele está imaginando o Holocausto – antes mesmo dos próprios nazistas, que somente embarcaram no seu projeto de extermínio em escala industrial em 1942.

Pouca coisa era mais preciosa para Churchill do que o Império Britânico – foi por esse motivo que ele havia se colocado contra a independência da Índia. Mas agora, contra a ameaça nazista, ele percebeu o que estava em jogo.

Seus adversários domésticos buscavam a paz com a Alemanha justamente para preservar o império. “Deixe a Europa para Hitler que a gente fica com as nossas colônias”, era o pensamento.

Churchill sacava que não havia possibilidade de acordo com Hitler. Era tudo ou nada, e uma derrota total era melhor do que um tratado que fortalecesse o monstro de Berlim. Esse foi o momento mais genial de uma vida de extremos. E, depois disso, ele mereceu todas as suas refeições gigantescas, acompanhadas, com certeza, de um charuto e várias taças de conhaque.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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