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MP-GO apura se houve crime em questão de concurso público que associou texto bíblico a alternativas racistas

O Ministério Público Estadual (MP-GO) instaurou, na quinta-feira (18), um inquérito para apurar se uma prova de concurso público de Morrinhos, que associou a interpretação de um texto bíblico a expressões de cunho racista, fere ou não o Estatuto da Igualdade Racial. O caso já é investigado pela Polícia Civil, que foi procurada após um candidato se sentir constrangido ao responder uma das questões.

As quatro alternativas de respostas à pergunta traziam frases como “negro deitado é um porco, de pé é um toco” ou ainda “negro parado é suspeito, correndo é ladrão, voando é urubu”.

O inquérito civil foi instaurado pela promotora de Justiça Jonisy Ferreira Figueiredo e tem o apoio do Centro de Apoio Operacional (CAO) dos Direitos Humanos. Segundo o MP-GO, o órgão notificou o prefeito de Morrinhos, Rogério Troncoso (PTB), para que preste os esclarecimentos que julgar necessários, além da empresa Consultoria Público-Privada (Consulpam), responsável pelas provas.

O G1 entrou em contato às 6h25, por email, com a prefeitura da cidade e também com a Consulpam, e aguarda um posicionamento sobre o caso.

Na quarta-feira (17), a Prefeitura de Morrinhos havia dito que cobrou da empresa responsável pelo concurso explicações sobre a prova, e que ainda não tinha sido notificada pela Polícia Civil para prestar esclarecimentos. Já o representante da empresa e coordenador das provas, Apolônio Nunes de Oliveira, disse que a questão não teve intuito de ser ofensiva, mas sim de provocar uma discussão sobre o tema.

“A ideia que a banca teve ao colocar esta questão foi de que isto chamava a discussão do preconceito, da origem do preconceito. Eu quero defender com toda nossa garra, com toda nossa força, que jamais teve o intuito de ofender ninguém”, disse.

A investigação feita pelo Ministério Público deve colher informações e, em seguida, propor uma ação civil pública, caso seja identificada alguma irregularidade ou configuração de algum crime, ou o arquivamento, caso a prova não tenha infringido nenhuma lei.

Questão de concurso público em Morrinhos associa texto bíblico a alternativas racistas

Questão de concurso público em Morrinhos associa texto bíblico a alternativas racistas

A prova foi aplicada no último dia 14, em Morrinhos. Ela trouxe, na categoria de conhecimentos gerais, um texto com o título “Qual a origem do racismo?”. O material afirma que, no século XXV, teólogos europeus chegaram à conclusão de que escravizar africanos era natural.

Segundo a prova, o embasamento para isso estava em uma passagem bíblica do Livro de Gênesis, em que Canaã, filho de Noé, se embriaga e é condenado à escravidão. Com base neste texto, uma questão perguntou qual seria o provérbio racista que representava a ideia do trecho da Bíblia.

A alternativa correta, segundo a comissão organizadora, era “negro só tem de gente os dentes”. O candidato podia escolhê-la entre as demais: “negro parado é suspeito, correndo é ladrão, voando é urubu”; “negro quando não suja na entrada, suja na saída”; “negro deitado é um porco, e de pé um toco”.

Hélio de Araújo Júnior é um dos mais de 3 mil candidatos que fizeram a prova e conta que ficou constrangido ao responder à questão. Ele fez o concurso para o cargo de fiscal de posturas, e procurou uma delegacia para que o caso fosse investigado. “Foi uma coisa muito discriminatória.”

“Algumas pessoas riram, fazendo chacota na hora que viram a questão, outros tomaram dores e faziam sinais negativos de que a aquela pergunta era inadequada”, disse o candidato.

Veja outras notícias do estado no G1 Goiás.

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